
12.02.2009 - Para a ciência esta data merece uma comemoração em homenagem ao bicentenário do nascimento de Darwin - pai da teoria evolucionista. Para a mídia, a mesma data significa polêmica, uma real ou suposta discórdia entre criacionistas e evolucionistas. Independente de qualquer coisa, antes e depois de 12 de fevereiro, o assunto vem sendo explorado, nem sempre da maneira correta nem sempre de maneira honesta. No entanto, e mesmo com tantas discussões, muitas perguntas ainda parecem soltas no ar, sem respostas substanciais ou argumentos coesos. Diante de todo debate levantado sobre o curioso crescimento do criacionismo, especialmente no que diz respeito à insistência de escolas confessionais em aplicá-lo em aulas de ciências, muitas dúvidas rondam por aí.
Na revista Veja, edições 2098 e 2099 de 4 e 11 de fevereiro, respectivamente, não faltaram informações sobre o modelo adotado tanto pela classe científica como pela própria mídia, isto é, o evolucionismo. A abordagem especialmente da edição 2099, a começar pela capa, foi sem dúvida muito completa. Talvez aos leigos, adeptos ou defensores do evolucionismo, a Veja tenha tratado exatamente daquilo que concordam, mas, uma leitura atenta e minuciosa, deflagrou a mais simples e negligenciada incoerência ao criticarem a postura de escolas evangélicas.
Na página 87 da referida revista (edição de 11 de fevereiro), é comentada a decisão legal do Estado da Louisiana, nos Estados Unidos, quanto à aplicação do criacionismo em sala de aula; diz a lei que tornou obrigatório o ensino que "é preciso ajudar os professores a criarem nas escolas um ambiente que promova o pensamento crítico, a análise lógica e a discussão objetiva das teorias científicas". A jornalista Carolina Romanini, autora da matéria, sobre isso diz: "São sábios conselhos, ninguém duvida. Apenas não estão a serviço do aperfeiçoamento das instituições acadêmicas."
Um pouco mais atrás, na página 73, na reportagem intitulada "A Darwin o que é de Darwin", a jornalista Gabriela Carelli, traz dados interessantíssimos sobre o criacionismo nos Estados Unidos: "O país dispõe das melhores universidades do mundo, detém metade dos cientistas premiados com o Nobel e registra mais patentes do que todos os seus concorrentes diretos somados. Ainda assim, só um em cada dois americanos acredita que o homem possa ser produto de milhões de anos de evolução. O outro considera razoável que nós, e todas as coisas que nos cercam, estejamos aqui por dádiva da criação divina."
Na mesma página, linhas abaixo, continua "Na semana em que se comemora o bicentenário de Darwin e, por coincidência, no ano do sesquicentenário da publicação de seu livro mais célebre, A Origem das Espécies, como explicar a persistente má vontade para com suas teorias em países campeões na produção científica?
Criacionismo e Evolucionismo continuarão sendo destaques nas pautas dos meios de comunicação, talvez de forma mais aguda, este ano, pelas comemorações relativas a Darwin. Há uma tônica, no entanto, com relação às escolas confessionais que adotam material didático próprio, introduzindo o criacionismo em aulas de ciência.
Apesar do compromisso da imprensa com a imparcialidade, fica clara a crítica, muitas vezes agressiva à determinação de escolas brasileiras confessionais que abordam os dois modelos: evolucionista e criacionista.
Mas, eis a pergunta: Sobre o que é esta discussão? Sobre uma deficiência científica real ou suposta advinda do criacionismo? Como já mencionei, há uma contradição em toda essa discussão. Os Estados Unidos reúnem os maiores títulos em produção científica assim como reúnem o maior número de criacionistas. Em que sentido o criacionismo atrofia o crescimento científico?
A revista Veja diz que as leis sobre educação de Louisiana têm conselhos sábios, mas não contribui para o aperfeiçoamento das instituições acadêmicas. Mas, a mesma revista traz dados sobre a maneira como os Estados Unidos são proeminentes nos quesitos universidade, pesquisa, ciência e premiação científica.
Do que se trata realmente esta oponência inegável ao criacionismo, uma vez que ele não tem absolutamente nada a ver com os atrasos da ciência? Seria um debate mais filosófico que realmente científico? Estaria o evolucionismo se tornando um discurso mais religioso que a própria fé religiosa? Será mesmo que os criacionistas perseguem o fantasma de Darwin ou o contrário, os evolucionistas é que são intolerantes com o posicionamento contrário? Se é que são tão contrários assim.
Em dezembro do ano passado, Mikhail Maltz, da Universidade do Texas, pesquisador de uma recém descoberta ameba gigante, disse que elas criam sulcos que se parecem com os que são encontrados em fósseis datados de mais de 550 milhões de anos. De acordo com Maltz, organismos multicelulares que têm duas metades simétricas evoluíram antes da explosão câmbrica, há 542 milhões de anos. Segundo os cientistas, organismos complexos poderiam se deslocar de forma a deixar traços nos fósseis, mas as amebas são unicelulares e deixaram os mesmos traços. Diante disso, Maltz declara: "Isso complica as coisas para a teoria de lenta evolução no pré-cambriano."
Este é apenas um dentre tantos exemplos de lacunas deixadas pela teoria evolucionista; há muitos outros, principalmente quanto à origem do homem ou homo sapiens como é chamado.
É claro que o evolucionismo apresenta também evidências, verificações, empirismo e conclusões importantíssimas para a compreensão de fatores ligados à vida. Mas, na verdade, o evolucionismo tem mais a ver com o funcionamento da vida do que com a origem da mesma. É relevante ainda atentar para o fato de que o criacionismo também apresenta evidências, métodos empíricos e verificáveis e considera tópicos da evolução.
Tudo isso é tão explícito quanto à parcialidade da mídia em defesa de um só modelo.
A educação confessional, tradicional e reconhecida por sua qualidade, oferecida pela rede Adventista, rede mundial, inclusive, já formou milhões de pessoas em suas mais diferentes unidades, do infantil ao universitário e em seus diversos campos de atuação. Das áreas humanas às biológicas ou exatas, estes profissionais estão por aí, contribuindo com o crescimento social, ambiental e comunitário. E qual a função da educação, senão esta, de formar pessoas integralmente comprometidas com o melhoramento do mundo?
"Nosso compromisso é com a educação magna, que envolve o ser humano como um todo. E educar é também dar chances para novas descobertas. Nossos professores e nossas bibliotecas apresentam material suficiente para explanar tanto o evolucionismo como o criacionismo. Desta forma atendemos às determinações da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, apresentando ensino comparativo e crítico", destaca a diretora da Rede Adventista de Educação para a região Sul de São Paulo, Maria Cristina Banhara.
Sendo assim, já está ficando desgastado este discurso infundado, de que o criacionismo é um atraso para educação e para a ciência. Está na hora de pesar o que realmente faz a diferença na construção de valores educacionais eficazes. Deve-se pensar em como resolver evasão escolar, violência e drogas nas escolas, sejam elas públicas ou privadas. Não é sensato, por parte da comunidade científica, acalentar traumas medievais. Escolas confessionais atuais nada têm em comum com a irracionalidade católica da Idade Média, até porque a origem do Protestantismo está diretamente ligada à Universidade. A Reforma Protestante teve início na Universidade e todo movimento se deu pela e com a educação - a História confirma esta informação. "O Protestantismo desde sua origem tem uma relação estreita com a educação. A concepção de educação para todos e pública, tem seu nascedouro com o Protestantismo, já com Lutero; posteriormente, no século 17 com Ratke e Comenius", diz Almiro Schulz, Doutor em Pedagogia com publicações sobre Educação.
Os criacionistas acreditam que Deus Se revela pela natureza e que a mesma deve ser estudada de forma racional para a compreensão das leis da física, da química, por exemplo, entre outras. A diferença é que não é preciso ser agnóstico para ser cientista.
Um dos maiores neurocirurgiões do mundo, Dr. Benjamin Carson, norte-americano, que se tornou mundialmente conhecido pelo sucesso em cirurgias de gêmeos siameses, é criacionista, assim como a maioria dos americanos. Será que o criacionismo inibe o desempenho intelectual e a capacidade de ser um brilhante colaborador da humanidade?
Mas, de tudo fica algo bom - a vantagem do pós-modernismo é exatamente esta: a pluralidade de ideias, o relativismo de conceitos e escolhas. Há quem deseje ter na raiz mais profunda da árvore genealógica uma ameba e há quem prefira ter Adão e Eva, ambas alternativas dependem da fé. Definitivamente, a última opção não tolhe o avanço da ciência.
